Francisco Noris (Fundador da NORZEC Holding, LDA, Chimoio, Moçambique)

A crescente disponibilidade de dados tem sido frequentemente interpretada como um avanço
suficiente para o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e apoio à decisão. Bases de
dados administrativas, sistemas digitais e plataformas de observação ampliaram
significativamente o volume de informação disponível, criando a expectativa de que a
qualidade das decisões evoluiria de forma proporcional. Essa expectativa, porém, não se
confirma automaticamente.
A experiência recente em diferentes sectores, em Moçambique e em outros contextos sugere
que a disponibilidade de dados, por si só, não garante a sua utilidade operacional. Em contextos
como a gestão de eventos hidrometeorológicos extremos, observados entre outubro de 2025 e
março de 2026, verificou-se com regularidade que as limitações críticas não estavam
associadas à ausência de informação, mas à sua inconsistência e falta de confiabilidade.
Durante esse período, foram identificadas séries pluviométricas com lacunas temporais
significativas, divergências entre estações geograficamente próximas e registos que excediam
limites fisicamente plausíveis, situações frequentemente associadas a falhas de medição ou de
transmissão. Estes episódios ilustram, de forma concreta, o custo real da ausência de validação
sistemática nos sistemas de apoio à decisão em Moçambique.
Um desvio não detectado numa única estação pode distorcer estimativas espaciais de precipitação para uma bacia inteira,com implicações directas na resposta a emergências e na alocação de recursos públicos.
Dados, independentemente da sua origem, podem apresentar inconsistências decorrentes de falhas de medição, erros de entrada, lacunas temporais ou problemas de transmissão. Quando não identificadas, essas inconsistências propagam-se ao longo de toda a cadeia analítica,
contaminando modelos, relatórios e sistemas de apoio à decisão.
Este desafio não se restringe ao sector meteorológico. Afeta directamente a qualidade da
informação utilizada na formulação de políticas públicas e na alocação de recursos nos sectores
da agricultura, saúde, ambiente e gestão de riscos. A crescente dependência de sistemas
orientados por dados torna imperativo tratar a confiabilidade da informação como um elemento
central da governação e não como uma questão técnica secundária.
Validação Sistemática: Da Técnica ao Instrumento de Governação
A validação sistemática de dados assume, neste contexto, um papel estruturante. A aplicação
de procedimentos de garantia e controlo de qualidade baseados em verificações de consistência,
limites plausíveis e coerência entre variáveis, contribui para identificar e corrigir anomalias
antes da sua incorporação nos sistemas de decisão. Práticas como a detecção de valores
atípicos, verificação de consistência temporal e comparação entre fontes independentes
reduzem a propagação de inconsistências e aumentam a robustez das análises.
Do ponto de vista operacional, a ausência de validação introduz distorções na interpretação de
indicadores críticos. Em contrapartida, a utilização de dados validados favorece análises mais
consistentes e decisões mais alinhadas com as condições reais observadas, o que é
especialmente relevante em contextos onde as decisões são tomadas sob restrições de tempo e
de informação incompleta, como acontece em emergências ou resposta a catástrofes.
A validação de dados não elimina a incerteza inerente à gestão de sistemas complexos. Mas
reduz substancialmente a incerteza desnecessária, aquela que decorre não da natureza dos
fenómenos, mas da falta de rigor no tratamento da informação.
Uma Transição Necessária: do Volume à Qualidade
À medida que os sistemas públicos se tornam mais dependentes de informação digital, a
robustez dos dados passa a ser tão crítica quanto a sua disponibilidade. A transição de sistemas
orientados predominantemente pelo volume de dados para abordagens que valorizem a
qualidade da informação representa um passo estrutural para o fortalecimento da resiliência
institucional em Moçambique.
Essa transição envolve mais do que soluções tecnológicas. Exige a definição progressiva de
protocolos institucionais de validação, integração entre sistemas e clarificação de
responsabilidades sobre a qualidade dos dados em cada nível da administração pública.
Envolve igualmente investimento em capacitação técnica e na criação de processos que tornem
a validação uma prática rotineira e não um exercício pontual realizado apenas antes de grandes
relatórios ou avaliações externas.
A validação de dados deve ser compreendida, em última instância, não apenas como um
procedimento técnico, mas como um componente estruturante da gestão pública baseada em
evidência. Ao melhorar a consistência da informação, amplia-se a capacidade de antecipação,
resposta e adaptação perante riscos, contribuindo para uma governação mais eficiente, mais
transparente e mais resiliente.


2 commenti

Santos Francisco Sozinho · 22/04/2026 alle 22:03

Muito bom.
Quando mal interpretamos os dados, corre se o risco de tomar decisões equivocadas e essa decisão reflete diretamente na solução a ser implementada.

Luca Bussotti · 23/04/2026 alle 08:56

De facto a ciência dos dados, em Moçambique, é um horizonte ainda pouco estudado…bom ler informações sobre esta tematica no site do Ciscam!

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