Luca Bussotti

A lista dos países que tiveram processos eleitorais manipulados, acompanhados por

violência do estado ao longo dos últimos anos é longa: Angola, Moçambique, Tanzânia,

Zimbabué, Uganda, sem falar de regimes monocráticos, tais como e-Swatini, Ruanda,

Guiné-Equatorial, República do Congo, em que só pensar numa possibilidade de uma

alternativa ao governo do dia representa, internamente, uma heresia, e como tal é tratada.

Deste vasto grupo de países fazem parte alguns que, durante pelo menos os vinte anos

seguintes à abertura democrática e à adopção de constituições liberais, foram

considerados como países “híbridos”, ou seja, não plenamente democráticos, mas em via

de abraçar um funcionamento institucional e uma cultura política de tolerância, respeito

para as oposições, disponibilidade para deixar o poder, caso os eleitores assim o

decidissem. Este processo foi acompanhado principalmente por um crescimento da

sociedade civil e das suas organizações, assim como por um interesse, por parte dos países

ocidentais, em demonstrar que o modelo democrático de matriz liberal era o certo para

que mesmo em África chegasse desenvolvimento, paz e bem-estar. Uma vitória simbólica

contra o comunismo que acabava de desabar estrondosamente, e a possibilidade de novos

mercados onde ir buscar importantes matérias primas, ou escoar alguns produtos

excedentes com relação aos mercados ocidentais.

Algumas das lideranças mundiais destes países até chamaram tais transformações de

“milagres”: é que o antigo presidente americano, Bill Clinton, falou de Moçambique nos

anos Noventa. Um país que tinha representado a quintessência do marxismo africano, em

pouco tempo estava-se tornando referência incontornável para estabilidade e democracia,

com processos eleitorais regulares (embora nunca transparentes…mas para isso era

preciso tempo, se dizia naquela época), introdução de políticas de descentralização que

muito cedo levaram a eleições também a nível local, e um clima geral julgado positivo

pela comunidade internacional. O neo-liberalismo se tornava ideologia única (o tal “fim

da história”), e o caminho da humanidade era pacífico e comum.

Junto com os Estados Unidos, os países europeus – começando pelos nórdicos –

engajaram-se sinceramente em políticas de cooperação, valorizando direitos humanos,

processos democráticos, transparência administrativa e por aí fora. Claro, sempre havia

uma componente económica, de interesses específicos que cada país pretendia cultivar e

implementar. Entretanto, os condicionalismos de práticas cooperativas (desembolso de

dinheiro) em troca de maior democracia e respeito pelos direitos humanos era assunto

sério, que obrigava vários destes países híbridos a aprovar cada vez novas leis,

respeitando as minorias presentes em todos os territórios africanos, a partir das de tipo

político e étnico.

No segundo decênio do século XXI, porém, o cenário iniciou a mudar. A nível

internacional, a extrema direita começou a ganhar um espaço até então impensável: as

vitórias de Trump, Milei, Bolsonaro (depois derrotado por Lula), Meloni, os sucessos

eleitorais de formações de inspiração neo-fascista e neo-nazista em grande parte da

Europa, mudaram não apenas o cenário político internacional, mas a própria cultura

política ocidental e, de reflexo, a sua concepção das relações com África. A ideia de terlimites ao poder de quem foi eleito diretamente pelo povo foi cancelada do ponto de vista

cultural, e a mesma tentativa está sendo feita em termos de reformas institucionais.

Quando Trump defende que o único limite à sua ação é a sua consciência e a sua ética

pessoal, isso significa que os outros poderes do estado já não existem, na mentalidade

dele. A doutrina fundamental da divisão dos poderes também já perdeu de atualidade, tão

que juízes, magistrados, assim como o “quarto poder” (a imprensa) representam apenas

obstáculos a quem deveria gerir o país (o presidente), segundo quanto decidido pelos

eleitores, em muitos casos com a benção de Deus.

Juntamente com esta mudança de cultura política, em economia os “Big Tech” ganharam

espaço, ligando-se às novas lideranças da extrema direita. A transição tecnológica precisa

de terras raras, a sociedade contemporânea de cada vez mais energia, assim a relação com

um continente como o africano também sofreu alterações significativas. Já não interessa

se um país é mais ou menos democrático: muito honestamente, Trump justificou a

intervenção americana na Venezuela não tanto com argumentações a que os seus

predecessores republicanos costumavam se apelar (“vamos levar a democracia pelo

mundo”), quanto pela necessidade de voltar a controlar o petróleo daquele país.

Esta lógica se aplica ao contexto africano também: a democracia já não representa um

asset fundamental para desenvolver programas de cooperação. A Suécia, o único país que,

no mundo, destina quase 1% do próprio PIB à cooperação internacional, anunciou o fecho

dos seus programas de cooperação em países como Moçambique e Zimbabué. Embora de

forma não oficial, mas é evidente que o governo sueco tomou consciência de que nesses

dois países a implementação da democracia falhou, e que já não era o caso de gastar o

dinheiro dos seus contribuintes lá onde a tendência é de uma acentuação do autoritarismo,

contrariando à história política daquela país europeu. A Itália mudou a filosofia da sua

cooperação: o lado humanitário ficou de lado, substituído pelo Plano Mattei, ou seja, um

modelo B2B, em que o que interessa são os negócios de mútua conveniência, ignorando

os elementos qualitativos da cooperação com África, ou seja, nível de democracia,

respeito pelos direitos humanos, autonomia da justiça, transparência eleitoral; elementos,

estes todos, relegados a assuntos internos do país africanos com quem decidiu-se

cooperar. Finalmente, os Estados Unidos, simplesmente, saíram do assunto da

cooperação, com o fecho da USAID, mas uma presença significativa das suas maiores

empresas, tais como Exxon, ou de programas virados para o desenvolvimento económico

de Washington, como no caso do Corredor de Lobito.

Em suma, a troca, ou chantagem, como muitos diziam, entre ajuda internacional e

implementação de instituições livres e democráticas passou de moda; assim, pouco

importa se as eleições, em África, serão ou não transparentes, se a democracia irá recuar

ou avançar, se os governos irão continuar a reprimir e matar os manifestantes, uma vez

que o principal e, em muitas circunstâncias, exclusivo interesse dos países parceiros tem

a ver com questões económicas, e com a extração de matérias primas preciosas para a

transição tecnológicas em curso (terras raras em primeiro lugar).

Entre os países africanos, os que tiveram processos eleitorais transparentes e uma

democracia digna deste nome são, hoje, uma minoria: África do Sul, Botswana, Cabo

Verde, Namíbia e poucos outros. Trata-se de países que estão a fortalecer suas instituições

democráticas não por causa de uma pressão externa, mas porque já adquiriram umacultura política de tolerância, procurando separar não apenas os poderes do estado, mas

também os negócios dos assuntos de interesse público, que representa um dos motivos

centrais pelos quais na maioria dos casos, em África, as elites não querem largar o poder.

A época de uma expectativa de mudança mediante intervenção externa, em África, deve

ser considerada de esgotada: hoje, as mudanças políticas, no continente africano, se jogam

todas a nível interno. Mediante eleições (caso cada vez mais complicado, devido às

manipulações pelos partidos no poder), golpes (como no Sahel), ou outras formas

violentas de atuação. Na maioria dos casos, a continuidade da repressão já representa (e

talvez esta será a tendência no futuro próximo) o modus operandi principal para confirmar

regimes sem legitimação popular, mas que conseguem desenvolver práticas colaborativas

B2B com antigos e novos parceiros, cujo interesse é continuar este relacionamento, e não

interrompe-lo para favorecer processos democráticos que iriam levar ao poder

personagens ou partidos pouco confiáveis, do seu ponto de vista. Assim, cada vez menor

é o interesse em condicionar seu apoio a princípios ético-políticos que remontam a um

tempo – o das democracias liberais – que, neste momento, parece longínquo e

desatualizado, e que está sendo substituído por práticas de bullying político a escala

internacional (assim como internamente)


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